Ana Vieira / Eterna Inquietação

Em 2104, para a sua última exposição, escrevi este curto texto, que republico aqui.
A exposição, na Galeria Graça Brandão em Lisboa, titulava-se “Inquietação”.

PT
A Inquietação habita constantemente a obra de Ana Vieira. È uma inquietação com os materiais tradicionais da arte, os seus formatos clássicos, a sua linguagem. È uma inquietação que muitas vezes emerge do espaço íntimo da casa da artista, dos objectos do quotidiano. Numa notável instalação vídeo anterior, Casa Desabitada (apresentada em Lisboa e no Porto em 2004 e 2005), surgia dos rastos deixados por corpos e histórias ausentes. Nesta nova obra a Inquietação torna-se manifesta: no brilhante diálogo entre o traço inquieto do desenho e o vídeo, instalado nas despojadas paredes da galeria, surgem as múltiplas instâncias de uma figura animada, num movimento circular e contínuo, aparentemente aleatório. A Inquietação habita os corpos, imprime-lhes a vida através da incessante procura de movimento.
Na língua alemã, de Unruhe – Inquietação, deriva a palavra Unruh, o nome da peça que dita o tempo aos ponteiros do relógio mecânico (o “volante” ou o “balanço”). È essa tensão da existência que a obra Inquietação nos devolve, não pela fragmentação científica do movimento, como nas séries fotográficas de E. Muybridge, explícita referência do processo criativo desta obra, mas através de um moto premente, imparável, perpétuo.

Moritz Elbert, Lisboa 2014

EN
Disquietude inhabits the work of Ana Vieira. It’s a disquietude about the traditional materials of art, it’s classic formats, it’s language. It often emerges from the intimate space of the artist’s home, from everyday objects. In a significant earlier video installation Casa Deshabitada (Empty House), shown in Lisbon and Oporto in 2004 and 2005, the disquietude emerged from the traces left by absent bodies and histories. In this new work the disquietude becomes evident: in the brilliant dialogue between the impatient sketch and the video, installed in the bare walls of the gallery, emerge the multiple instances of an animated figure in a continuous circular movement, apparently arbitrary. The disquietude inhabits the bodies, giving them life trough the ceaseless seek for movement.
In German, from the word Unruhe – Disquietude, comes Unruh, the piece that in a mechanical clock dictates the time to the pointers (the balance). It’s this tension to existence that the work Inquietação (disquietude, restlessness) presents us, not by the means of the scientific fragmentation of movement, as in the photographic series by E. Muybridge, an explicit reference in the creative process of this work, but trough a chasing, relentless, perpetual motion.

Moritz Elbert, Lisbon 2014

 

Nota biográfica
Ana Vieira (Coimbra 1940 – Lisboa 2016), forma-se em Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, depois de uma infância passada na ilha de São Miguel, Açores. Expõe colectivamente desde 1965, a sua primeira exposição individual data de 1968. Viveu e trabalhou principalmente em Lisboa.
Desde muito cedo a sua pesquisa afastou-se da pintura à procura de novas e mais completas formas de expressão, colocando-se muitas vezes num território intermédio entre desenho, escultura e instalação. Ao longo da sua carreira tem realizado objectos e construções cénicas de grande potência plástica e poética, elegendo a casa e a sua intimidade como tema central da sua obra.
Participou em diversas exposições colectivas e individuais, de que se destacam Alternativa Zero – Tendências na Arte Portuguesa Contemporânea, organizada por Ernesto de Sousa em 1977, e a exposição antológica que a Fundação de Serralves lhe dedicou em 1998. Em 2010, apresentou no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a exposição Muros de Abrigo/Shelter Walls.
Em 1985, foi galardoada com o prémio conjunto da AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte e da SEC – Secretaria de Estado da Cultura.
Repetidas vezes, colaborou com companhias teatrais na construção dos figurinos e cenários das suas peças, como por exemplo Os Sequestradores de Altona, de Jean-Paul Sartre, no Teatro Tivoli em Lisboa, em 1979. De uma colaboração com os Artistas Unidos nasceu a videoinstalação Casa Deshabitada, apresentada em Lisboa e no Porto em 2004 e 2005, respectivamente.
O seu trabalho está representado em diversas colecções, como as do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação de Serralves e do Musée Cantonal des Beaux Arts de Lausanne, da Fundação EDP e da Fundação Carmona e Costa.

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